quinta-feira, 5 de abril de 2012

"Pode o TEATRO falar sobre o presente?" - O Drama Burguês

O teatro não tem uma única essência, existem teatros e teatros ao longo da história.
Agora, o que é o presente? O teatro pode falar sobre o presente? O grego não faria esta pergunta, pois os gregos vêem o tempo cíclico, seu tema principal é o mito, a problematização dos heróis que são dependentes do tempo, para eles o mundo sempre existiu e nunca vai terminar.
Mas para o homem medieval o tempo já está determinado pela providência divina. Então, ele utiliza-se de exemplos do que já foi feito para continuar vivendo, uma repetição de ações e pensamentos, afinal o homem não fazia parte da construção do novo, tudo já estava estabelecido. A forma teatral medieval é a missa, a religião, a salvação. O que interessa a ele é o evangelho. Para o homem grego é o mito.
Portanto, a pergunta tema trata-se de uma pergunta moderna.

No tempo da sociedade burguesa (séc. XV a XVIII), existe a ideia de que o passado e o futuro se estendem ao infinito. O passado ficou pra trás e o futuro ainda nem existe. Há um espaço para o novo, daí a valorização do tempo presente.
No mundo moderno o mito e a religião deixam o centro para o indivíduo. É o momento em que a pessoa tem escolha sobre seu próprio destino, é o que se chama de Ação Eletiva. Afinal, o futuro está aberto, ele não é mais determinado.


Surge nessa época o Drama Burguês que, em seu auge, é um gênero teatral que aparece com a burguesia. Dideroté o teórico do Drama Burguês, que não dá muito certo. É a burguesia inventando um teatro onde seus valores estão imbuídos de forma indireta, pelo drama.
Este gênero tem duas funções:

- A moral, segundo seu tempo. Ele acha que o teatro tem de ser transformador. Entende-se por transformador: esclarecer os homens, racionalizá-los; ensiná-los a amar a virtude e a odiar o vício.


(A moral é determinada por homens como um conceito de atitudes e ações aceitas pela sociedade, nada tem a ver com a política, polis, ou seja, com o que acontece na cidade).

(Virtude= disposição para seguir aquilo que é considerado regra, moral admitida numa época por um conjunto de homens em seu momento histórico).


- Outro aspecto, além da moral, por o presente em cena, de forma secundária, afinal, seu interesse é moralizar.
Pois, como é possível transformar o espectador? Para Diderot, você tem de agitar o público, transtorná-lo, levá-lo às lágrimas. Teatro ali não é a palavra, são as expressões faciais, os gritos, o corpo. Esse é um teatro ilusionista, é levar a platéia a crer que aquilo que está acontecendo ali é o que acontece no mundo, é o real.
Pra isso ele cria dois "gêneros intermediários"
- A Tragédia Doméstica
- A Comédia Séria
(Comédia é tratar de assuntos baixos do cotidiano, tudo de forma ilusória).

Neste ponto ele democratiza o teatro, afinal não são mais os reis e rainhas que figuram como personagem, é também a burguesia, o trabalhador. É a natureza humana, a sentimentalidade sua estratégia teórica, que tem a ver com interesses específicos. Ele vai mudando quem é objeto sério e quem é objeto de riso.
Diderot é o teórico do realismo, mas para ele realismo tem a ver com produzir um efeito do real.


O foco disso tem uma dimensão privada.
Ele considera o mundo privado o centro do teatro, figurado na família burguesa. E faz isso porque a família é o espaço ideal para o culto da virtude, a família é um bem supremo, único lugar onde se pode ser feliz, pois lá fora é o lugar da competição. Aí ele privatiza o teatro.

Lembrem que: teatro não é isso, isto é um teatro.

Diderot não separa conteúdo e forma. O drama ali é um teatro fechado para a relação interpessoal, a imagem do homem liberto das coerções externas. O centro do drama é a decisão do homem à partir de sua ação e vontade naquele momento.

Nota: nada mais interessante pro capitalismo que o homem seja senhor de seu destino, assim ele pode competir livremente, sem culpas ou moralismos, ele pode determinar o seu futuro sozinho e por qualquer meio.

O drama burguês, portanto, fala do homem que é livre e que só através do diálogo ele realiza suas vontades. Não há prólogo, prefácio ou posfácio, só existe o momento.
Neste drama não há futuro previsto, ele sempre é aberto para o novo. Só existe situação, personagem e diálogo. Situação, personagem e diálogo. Situação, personagem e diálogo. As palavras são só aquelas que saem da boca do personagem. O autor e a narrativa, no sentido figurado, desaparecem. A profundidade está no indivíduo e na privatização, não há mundo externo, não há influência externa, só existe a família.
Nesse ínterim, o espectador é um espectador passivo, que se constitui numa identificação pelo irracional. Se eu me identifico com o personagem, eu compro a dramaticidade, eu aceito para mim sua sensação e não penso ou discuto sobre ela.

Exemplo: filmes de Hollywood, quem nunca se colocou na situação da Rose e chorou quando Jack morreu congelado depois do Titanic ter naufragado?

A ação deste drama, aberto ao futuro, trata de ilusão, que trás uma imagem do que promete ser a modernidade: você vê a peça e constitui uma imagem do que é o presente.


Já o Teatro Moderno critica a imagem que a burguesia faz, mas sem negá-la, ele mostra que você é livre, mas questiona isso, critica o presente e promove abalos nesta realidade.


Lucas Nuti
Evoé.

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